Três Bons Primatas

mensagem na garrafa - responda ou envie a sua também
Envio esta mensagem na garrafa para falar de três bons primatas. O Primata Pescador, o Primata Sonhador e o Primata Escritor.

Deste três, dois eu tenho guardado na memória e no coração e um deles eu continuo a compartilhar meu coração e pretendo fazê-lo até o resto da minha vida.

O Primata Pescador da Lagoa dos Patos, figura ímpar, tinha a alegria de uma criança e um amor irrestrito à natureza. A Lagoa dos Patos era seu reduto primata onde com sua habilidade de pescador sabia o lugar certo de encontrar o peixe certo na hora certa, com a certeza de que só tirava o suficiente para um suculento peixe ensopado e que nos dias seguintes sobrariam mais e mais peixes para outros pescadores.

O Primata que sonhava com o mar, homem íntegro, inteligente, de coração grande, amigo e pai. Trazia em sua ressonância de português/carioca seu sangue marítimo. Velejava nas páginas dos livros e revistas náuticas sonhando um dia poder parar de se dedicar integralmente à família e curtir o seu tão sonhado mar.

O Primata Escritor apaixonado pelo mar, apaixonado pela vida, tem no barco o seu refúgio, sua caverna. Corajoso, amante da natureza e da liberdade. Um primata que respeita a natureza, o mar, o próximo. Que se preocupa com a segurança e conforto de sua tripulação em terra e a bordo.

Todos os três marcaram a minha vida.

Com o Primata Pescador eu tive a sorte de ter compartilhado sua companhia como nora. Com o Primata Sonhador eu tive o privilégio de ser sua filha e, em algumas situações que vivi no mar, senti a sua presença ao meu lado, como um pássaro que pousa no convés numa calmaria e uma vez que me acordou numa ancoragem de navios. Com o Primata Escritor eu tive a felicidade de me apaixonar e casar e de viver momentos inesquecíveis no mar.

Acho que os bons primatas vão transmitindo seu estado de espírito primata, pouco a pouco, para que possamos nos tornar mais atentos às delícias, aos encantos e aos segredos do mar. Foi assim que o Primata Pescador transmitiu seu amor à natureza ao Primata Escritor. E foi assim que um dia o Primata Escritor, já apaixonado pela natureza, folheou as revistas náuticas do então falecido Primata Sonhador e passou a sonhar com o mar.

Foi desta forma que as leituras comoventes da Conversa no Píer, sobre os Primatas do Mar, O Velho Pescador, Os Trabalhadores do Mar e o Tio Les me levaram a refletir sobre o que é importante na vida. A eles meu agradecimento por transmitirem seus saberes e a vocês leitores(as) “internáuticos”, como eu, obrigada por lerem esta minha mensagem na garrafa.

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Alvídia na Conversa no Píer por menos da metade do preço!

alvidialivros natal 1 - alvidialivros natal 1
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EDITORIAL - Um Tango de Um Homem Só

Antony Quinn - Antony Quinn
A Conversa no Píer de novembro é sobre “os primatas do mar“. A princípio pode-se imaginar aquelas pessoas que desfrutam o ambiente marinho de um modo rudimentar. Que não se preocupam muito com o conforto e, também aparentemente, sem cuidado com a segurança. Mas como em tudo na vida, especialmente no mar, as aparências enganam.

Podemos imaginar, ainda, pessoas que não dão importância para a higiene pessoal, roupa passada, lavar as mãos antes das refeições e coisas do gênero que deixam qualquer terráqueo convencional estupefato. Preconceito, puro preconceito.

De lado esses erros de cálculo, posso afirmar, sem medo de cometer injustiça, que a melhor descrição de um verdadeiro “primata do mar” é a pessoa ser ou tender a ser safa, auto-suficiente, se virar sozinha, dar conta do recado em situações corriqueiras, tais como tapar um buraco do tamanho de um ovo no casco de seu barco durante uma travessia, emendar com cabos um mastro quebrado numa tempestade, fazer uma âncora de temporal com roupas velhas, coisas essas que salvam a sua vida, sem tirar-lhe o desejo de continuar vivendo a bordo; situações que transmitem ao resto das pessoas a sensação de que eles, os primatas do mar, são aventureiros, destemidos, heróis.

Quando na verdade os primatas do mar, os verdadeiros primatas do mar, são as pessoas mais simplórias que se pode conhecer, despojadas, ao contrário de necessariamente rudimentares, muitas vezes preguiçosas (o que é contraditório, mas enfim…), gostam do conforto (ainda que o conceito de conforto sejam-lhe bem peculiar), e desprovidas de vaidade, discretas numa marina, por exemplo, em detrimento da tendência de autopromoção (embora o seu visual às vezes crie “espécie”, como diria a minha vó)… Por fim, sem esgotar personalidades e características, são mais preocupados com a sua segurança do que muitas mães o são com os seus bebês.

Há homens e mulheres assim, mas a estatística provável é que existam mais peludos primatas do que “amazonas”. E o título improvisado para este editorial é por conta do apelido de Antony Quinn, cunhado por Orson Welles de “One-man Tango”, um homem tão confiante que seria capaz de dançar um tango sozinho.

Minha lista privilegiada de amigos e conhecidos “primatas do mar” é tão longa que não seria possível descrever seus perfis numa única edição da nossa compacta Conversa no Píer (seria necessário um livro, que aliás está a dois palmos do prelo). Por isso escolhi alguns representativos e convido, desde já, os leitores para colaborarem com suas histórias de “primatas do mar”.

Na mesma pauta, nesta edição, na coluna Trópico de Capricórnio, cujo nome do colunista está corrigido (na edição anterior JJ Magalhães), Magalhães Netto oferece um texto comovente e convidativo à reflexão, O Velho Pescador, na coluna Vento Sul Luís Peazê resenha, ao correr da pena, Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, tradução de Machado de Assis, e um texto exclusivo de John Hemingway, neto do famoso Ernest Hemingway, sobre um tio seu que foi um verdadeiro representante dos primatas do mar, pois não é que ele, o tio de John, construiu uma ilha próximo da Jamaica e fundou ali um país, é verdade, fundou um país com constituição, moeda e tudo e do qual se elegeu presidente, com o reconhecimento do governo dos Estados Unidos da América.

Boa Conversa no Píer

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O Velho Pescador

Gregorio Fuentes - Gregorio Fuentes foi skipper do Pilar, barco de pesca de Hemingway e o inspirou para o personagem do clássico O Velho e o Mar
A tarde estava amena, e o velho acomodou-se com dificuldade em sua cadeira, levada por familiares até a praia defronte à pequena casa. O barco fora puxado fora d’ água no dia anterior, o filho já limpara o fundo, serviço cansativo, e agora iniciava a demão de tinta venenosa, à espera da maré alta, no meio da noite, que permitiria à embarcação flutuar novamente. E ele gostava de ficar ali sentado, a ver essa atividade, ver apenas, já que seus membros cansados não lhe permitiam mais ajudar na faina.

Era um bom barco, divagou. Da melhor madeira, escolhida a dedo. Custara-lhe muito construí-lo, em anos perdidos no tempo. Não tanto em esforço físico no serrar as pranchas e tábuas, saúde para isso ele tinha, mas em juntar dinheiro para adquiri-las, e o mais necessário à feitura da embarcação. Dinheiro vagarosamente amealhado, com a venda do pouco pescado que conseguia trazer do mar em sua pequena canoa. Ela, levada pelos seus braços e por um pouco de pano quando o vento era favorável, não lhe permitia ir longe, atrás dos peixes maiores.

Conseguir o motor, aquele agora também velho motor, fora o mais difícil. O banco lhe recusara o dinheiro, dinheiro pedido contra a hipoteca de sua casinha. Para eles, ela não valia nada, disseram-lhe. Não tinha documentação, nem o terreno nem a construção. E por que teria? Recebera-a do pai, que a herdara do avô, a área era de sua família desde o começo dos tempos, com documento ou sem ele era sempre tida e aceita como de sua família!

Verdade é que, em sua meninice, o terreno era muito maior, a construção ladeada por um pomar onde as pitangas e jabuticabas faziam a delícia da garotada. Nunca se pensou em cercá-lo, em documentá-lo. E então, aos poucos, foi-se perdendo, invadido, o entorno da casa. Mas não pelos antigos vizinhos, gente da terra, respeitadora, que cederam à valorização provocada pelo turismo, venderam suas propriedades centenárias, logo demolidas. Foi tomado pelos recém-vindos, os veranistas compradores, que mostravam papéis que diziam legitimar a invasão. E sua casinha acabou espremida entre as novas e ricas residências, sem mais que alguns palmos de terra livre para plantar uma verdura ou algumas flores.

Não poucas vezes foi aconselhado a vendê-la também. Teria o dinheiro para o motor, e para comprar uma casa melhor, talvez no longínquo pé da serra, onde o terreno permanecera barato. Mas ele resistira, como resistira em fazer o que fizeram parentes e amigos, deixar a pesca e aderir a alguma das atividades bem mais rendosas e menos rudes que a chegada do turismo já propiciava. Nascera pescador, morreria pescador.

Finalmente, lograra um empréstimo com um amigo, e comprara o motor. E então a embarcação que construíra foi à água. Sua pesca passou a ser mais produtiva, não teve dificuldades em livrar-se da dívida. Por decênios trabalhara nela, primeiro sozinho, depois ajudado pelo filho. O barco sustentara a família que crescera, o filho casara, vieram os netos. Que estavam agora também ali à sua frente, mexendo no tabuleiro dos espinhéis, preparando-os para a próxima pescaria.

Era mesmo um bom, um robusto barco. Enfrentara com galhardia temporais que desmanchariam as tábuas de quaisquer outras embarcações. As lembranças daqueles dias foram aflorando, os episódios mais difíceis surgindo do passado, tomando forma, e uma angústia súbita lhe veio, prendeu-lhe a respiração. Como gostaria de sair para o mar aberto novamente, sentir novamente o perigo presente, o balançar doido do convés a seus pés na tormenta, o espirrar das ondas altas quebrando na proa, o cheiro forte e gostoso da maresia entrando-lhe pelas narinas…

Nunca mais. Não com sua saúde assim debilitada, os passos trôpegos que mostravam não poder mais suster-se a bordo, nem mesmo no arfar suave da embarcação em tempo bom. Nunca mais. Mas estava ali seu filho, e os netos ajudando-o na tarefa marinheira. Eles eram sua continuação. O amargor se foi tão depressa quanto viera. Pensou nas tentações que cercavam a juventude depois que fora construída aquela maldita estrada, a estrada que transformou a vila pacata numa cidade turística. No descaminho, para a marginalidade e para as drogas, dos filhos de tantos conhecidos, até de parentes. Sentiu-se realizado, fora poupado, conseguira manter seu filho junto ao mar, e os netos iriam segui-lo, já mostravam que iriam segui-lo. E eles estariam bem.

Eles estariam bem. Seu olhar afastou-se pela praia em direção ao centro da cidade, meia hora a passo adiante. Logo mais as luzes da avenida que ladeava o mar se acenderiam. Eram luzes fortes, muito fortes, que escondiam o brilho das estrelas, tiravam a graça da noite praiana. Mesmo assim, teimara em passear na areia com a mulher em noites enluaradas, como fizera desde que se uniram. Caminhavam de mãos dadas pela praia, descalços, sentindo nos pés a espuma fria das ondas mais atrevidas, nunca cansando de ver a ardentia formada no seu rebuliço.

Certa vez foi advertido pelo filho. Havia perigo, a cidade não era mais a mesma, as pessoas não eram mais as mesmas. E ele naquela idade não era mais o mesmo, podia ser assaltado no escuro da noite. Não deixou de fazê-lo, preferia morrer a deixar de fazê-lo. Mas foi sua companheira quem partiu antes dele, e com ela se foi também o encanto dos passeios noturnos, ficou só a saudade…

Saudade… É, o mundo mudara tanto, tanta coisa mudara… Lembrou o absurdo que assistira pela manhã, uma viatura com uns tais fiscais ambientais a ordenar que seu filho removesse para a água o barco, não poderia mais utilizar a praia para a manutenção semestral do velho casco … Não adiantou mostrar que havia um encerado estendido debaixo da carreta para aparar eventuais pingos de tinta, fizeram-lhe assinar documento comprometendo-se, sob pena de multa pesada, a tirar a embarcação da praia até o dia seguinte…

…daquela mesma praia onde ela fora construída, e tantas outras e outras também, mesmo antes que qualquer turista pisasse aquelas areias… antes que eles conspurcassem essas mesmas areias com suas latas de cerveja, suas embalagens plásticas, sua sujeira …

É, o mundo mudara, não o entendia mais…. Mas ele não mudara, e o mar também não, era sempre o mesmo, sua beleza a mesma, sua rara e também bela fúria a mesma. Só o peixe, mais escasso, precisava ser buscado cada vez mais longe, mais longe…

Saudade… Sentado em sua cadeira, o velho pescador foi vagarosamente cerrando seus olhos. Quando os fechou de vez, viu-se imediatamente sobre seu barco. Novamente sobre seu barco, segurando firme o leme de seu barco. O mar estava grosso, mas ele sabia que mais adiante baixaria, e era importante aproveitar aquele primeiro dia de navegação para atingir um bom pesqueiro, o melhor pesqueiro. Lá, com as águas mais amansadas, poderia pescar o suficiente, traria na volta à família pescado suficiente para mantê-los até seu próximo retorno do mar.

Terminado seu trabalho, o filho notou que o velho dormira. Era hora de voltar à casa, chamou-o, sacudiu-o. De longe, de muito longe, o pescador ouviu vozes aflitas chamando-o, chamando-o. Era sempre assim, quando ele deixava terra para pescarias mais demoradas. A companheira chorosa, o filho quando pequeno chorando também, querendo ir junto. Mas eles ficariam bem, até sua volta eles estariam bem…

Aos poucos a voz dos familiares foi ficando mais fraca na distância, e o velho pescador concentrou-se em seu rumo.

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NOTA DO EDITOR: Magalhães Netto não necessariamente inspirou-se em O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, na verdade ele inspirou-se em amigos seus que de um jeito ou de outro o remetem à idéia do homem primata do mar, na acepção mais nobre desta expressão que criamos aqui na Conversa no Píer. Mas encontramos essa foto de Gregório Fuentes, que foi o skipper do Pilar, barco de pesca de Ernest Hemingway, acompanhou o grande escritor e aventureiro por décadas, e o inspirou para escrever sua obra clássica, com a qual ganhou o Prêmio Nobel de Literatura O Velho e o Mar. Esta foto, na cadeira, foi clicada no famoso bar em Key West, Sloppy Joe´s, que por acaso tem uma história muito interessante de “primatas do mar”. Um dia nós a abordaremos aqui…

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Uncle Les, by John Hemingway - Tio Les, traduzido por Luís Peazê

Tio Les (tradução por Luís Peazê)

Luis Peazê e John Hemingway - Luís Peazê e John Hemingway na Jornada Literária de Passo Fundo
Ele era muito parecido com o seu irmão, e à noite, ou do outro lado de um quarto escuro, ou quando você bebia um pouco demais você até pensava que ele era o grande escritor em pessoa. Com pelo menos 1,90m de altura, estatura pesada como o próprio Ernest, o mesmo sorriso largo e a o timbre alto de voz característica de Chicago, meu tio Leicester foi uma pessoa que eu nunca vou esquecer.

Morava numa casa estilo colonial com sua família no topo da ilha San Marino, entre Miami e Miami Beach, e enquanto eu estive lá, entre os anos de 1973 e 1977, havia sempre uma visita para jantar ou beber um drinque. Ele tinha literalmente centenas de amigos e conhecidos e seu entusiasmo por tudo que fazia era tão contagiante que, por onde quer que ele andasse, estava sempre rodeado de atentos ouvintes.

Penteava os cabelos pretos agrisalhados para trás e usava um par de óculos com armação preta e pesada que aparentava algo entre um trabalhador de escritório e um poeta beat dos anos sessenta. Era dezesseis anos mais moço do que Ernest e dezesseis mais velho do que meu pai. Era o último filho vivo e tem muitas coisas de sua personalidade e caráter que me fazem lembrar de meu pai Gregory e meu avô Ernest.

Gostava de estar rodeado de pessoas e se divertir, mas podia também permanecer longamente solitário. Se houvesse alguém por perto para conversar ele conversaria, mas frequentemente lá estava ele no quintal dos fundos, ouvindo o vento nos pinheiros, pensando silenciosamente, empilhando achas de lenha que ele utilizava quase todas as noites na lareira. Nunca me falou muito sobre a sua família, mas eu sei que ele amava o seu irmão e que tendia a culpar a sua mãe pelo suicídio do pai. Obviamente que você não poderia afirmar que minha bisavó foi a culpada. Uma depressão clínica desenfreada atacou a família — o pai e mais três filhos cometeram suicídio até então. Desta forma era mais fácil culpar alguém do que lidar com a realidade de uma má sorte genética.

Tal qual meu avô, Tio Les era um grande viajante. Estava sempre pronto para ir para algum lugar e consumiu grande parte da sua vida pulando de ilha em ilha no Caribe. Depois de servir o exército, durante a guerra, ele foi diretor de uma companhia de navegação nas Ilhas do Caribe por dois anos, depois disso, nos anos sessenta e setenta, ele dirigiu e imprimiu o único jornal das Ilhas Bimini. Chegou até a “criar” a sua própria ilha, ou “república” como ele chamava.

Com uma boa soma ganha com a biografia de seu irmão ele criou uma ilha artificial, sobre uma barreira de corais ligeiramente fora das águas territoriais das Bahamas. Ele chamava o “seu país”, do tamanho de um campo de futebol, de “Nova Atlântida”. Pensava que entre tantas coisas ele poderia usá-la para ensinar a democracia para jovens e experimentar formas de governo.

Chegou a imprimir o seu próprio selo e fazer uma petição às Nações Unidas para reconhecimento. Tinha até uma foto dele com Hubert Humphrey, o vice presidente de Johnson, pendurada no banheiro de hóspedes de sua casa. Infelizmente a ilha do Tio Les não durou muito. Dois meses após ele conclui-la um furacão a destruiu.

Tal qual meu pai, era difícil considerar Tio Les um seguidor da moda. Ele possuia sim um terno e gravata, visto na foto com o vice-presidente dos Estados Unidos, mas seu traje habitual era uma vistosa camisa Cuban Guyabara e uma calça cáqui desbotada. E eu acho que nunca vi Tio Les com um par de sapatos de couro. Preferia canvas dock side ou qualquer tipo fácil de enfiar os pés sem a preocupação que estivessem secos ou molhados, limpos ou sujos.

Muitas pessoas olhavam para o jeito que ele se vestia e para o velho carro de segunda-mão que dirigia achando que ele não era sério como seu irmão e que lhe faltava o trato e a elegância de Ernest. Certamente que ele não tinha a notoriedade e alcançado o sucesso de Ernest, mas isso, o nível de Ernest, eu duvido que qualquer um de nossa família alcançará. Meu avô era uma pessoa difícil de se conviver e acompanhar. Um gênio é um gênio e não pode ser copiado.

Mas Tio Les tinha uma idéia clara do que era certo e errado e como um homem deveria viver. E dignidade foi uma coisa que ele não considerava superficialmente, achava que havia muitas coisas que se poderia fazer para realçá-la ou perdê-la de vez.

Socorrer seus amigos, sua família, quando necessário, era a segunda natureza de Tio Les. Ele não esperava ser convencido, ia e fazia tudo o que estivesse ao seu alcance. Sei disso porque quando eu tinha treze anos minha mãe sofreu uma afecção mental. Ela tinha dupla personalidade, ou esquizofrenia, e esta não tinha sido a primeira vez que ela tinha tido problemas, mas foi a primeira vez que eu, como filho mais velho — minha irmã era um ano mais moça do que eu, meu irmão seis — tive que pensar sobre uma solução.

Meus pais haviam se divorciado quando eu tinha seis anos e meu pai foi viver em New York. Estávamos em casa e minha mãe foi presa por dirigir embriagada. Um policial apareceu na nossa porta no dia seguinte, disse-me o que acontecera e perguntou se havia alguém para tomar conta de nós durante o fim de semana, enquanto minha mãe estivesse detida.

Respondi que conhecia uma senhora, a mãe de um amigo da escola. Então ele nos colocou no carro da patrulha e nos levou até a casa dela. No trajeto ele percebeu que estávamos nervosos e tentou brincar com a situação dizendo com um sorriso: - vejam todas estas pessoas tolas lá fora. Elas pensam que vocês três estão presos. Anos depois, relembrando aquela viagem eu pensei como ele foi gentil e como deve ser difícil às vezes para um policial.

Ficamos na casa de meu amigo por dois dias e sua mãe foi muito amável conosco e antes de nos levar de volta para nossa casa ela comprou comida e encheu nossa, então, geladeira vazia.

Minha mãe foi solta, mas duas semanas mais tarde foi presa novamente por dirigir embriagada. Desta vez, quando o policial fez contato com a mãe do meu amigo ela telefonou e perguntou se não tínhamos parentes em Miami. Imediatamente pensei no Tio Les. Porque a mãe do meu amigo explicou para mim que, por causa do péssimo estado de minha mãe, se ninguém da família tomasse conta de nós, o Estado da Flórida iria nos internar em abrigos públicos para menores, separados, um em cada lugar.

Naturalmente que Tio Les e sua esposa, Doris, disseram à polícia que tomariam conta de nós. E foram nos apanhar num de seus velhos carros, uma viagem pela estrada aterrada Venetian até o topo da ilha onde moravam.

Lembro que no início, mesmo tendo um lugar para ficar, eu não era feliz. Tive que deixar minha escola e meus amigos e estava num ambiente completamente estranho.

Eu devia estar emocionalmente chocado e escrevia cartas e mais cartas para meu pai, seu irmão, meu outro tio Jack, para qualquer um que pudesse, eu pensava, me tirar de lá.

Tudo parecia fora de controle e eu estava tentando estabelecer, do meu jeito confuso, uma forma qualquer de ordem. Foi um período difícil da minha vida e meu Tio Les sabia. Seu pai morreu quando ele tinha 13 anos de idade e por causa do desastre financeiro que a sua mãe teve que lidar ele foi enviado para a casa de sua irmã mais velha e seu marido no Hawaii. Ele nunca me contou isso. Eu descobri anos mais tarde quando alguém me enviou um livro com o título “Hemingway de A a Z” com uma rápida biografia dele, revelando que vivera lá quatro anos de sua vida.

Quando eu estava com treze anos, magricelo e desajeitado como somente um adolescente pode ser, lembro ter dito para ele que achava que eu nunca seria alto e forte como ele. Perguntei como ele era na minha idade. De repente ele perdeu o sorriso, franziu o cenho e disse: “- exatamente como você”. Deveria estar olhando para mim e revendo a si mesmo, um sobrinho tímido e introspectivo.

Quando eu finalmente desisti de escrever cartas comecei a ler os livros de meu avô. Li Farewell To Arms, Men Without Women, Nick Adams Stories e todos os demais. Fiquei fascinado, eu acho, pela idéia de estar relacionado a alguém que podia escrever tão bem. Parecia tão grande, tão irreal. Mas quando eu tive contato com For Whom The Bell Tolls, Por Quem os Sinos Dobram, lembro que numa tarde estava lendo o livro na mesa da sala de estar daquela grande casa no topo da ilha, era agosto e estava muito quente, muito úmido também, e eu vestia bermuda cáqui, sem camisa, descalço, e Tio Les aproximou-se pelas minhas costas, em silêncio, e colocou sua mão no meu ombro ossudo e disse: “- ele escreveu isto para rapazes como você, Johnny, lembre-se disto”.

Acho que jamais recebi, ou nunca irei receber, um cumprimento mais significativo na minha vida. Ele não disse mais nada. Deixou assim, mas foi o bastante. Por Quem os Sinos Dobram é um livro que vai no âmago de tudo o que meu avô acreditava. Sacrifício, coragem, abnegação e tudo expressado lindamente em um poema no início do livro pelo poeta John Donne.

Nenhum homem é uma Ilha, inteiramente em si mesmo; todo homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra. Um Torrão levado pelo Mar diminui a Europa, como se um Promontório fosse, da mesma forma que a Herdade Feudal de teu amigo ou a tua própria também. A morte de um único homem Me diminui, porque eu sou parte do Gênero Humano. Portanto, nunca queira saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.

Regras para a gente inspirar a nossa vida, sempre pensei, sobre a dignidade de um homem, qualquer homem. Ele não poderia dar-me muitas coisas, materiais, mas no seu próprio jeito subentendido e através de suas ações mostrou-me o que é importante na vida.

Quatro anos mais tarde eu deixei a casa da ilha, a diabetes de Tio Les deteriorou ao ponto dos médicos decidirem amputar as suas pernas, então, não querendo se tornar um estorvo na vida de ninguém, terminou ele mesmo com a própria vida.

Milão, agosto de 2002.

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NOTAS DO TRADUTOR:
“John Hemingway me contou que desde a adolescência mantém na sua carteira o poema de John Donne, que inspira o nome do maior romance de seu avô, Por Quem os Sinos Dobram”

“John me contou também que acabara de escrever o artigo traduzido ao lado, quando eu lhe telefonei para sua casa em Milão, Itália”

“John ficara impressionado com a coincidência, eu estar traduzindo o livro de seu avô, que segundo ele é o mais forte dentre todos, no momento em que ele escrevia o artigo”. Luís Peazê

A ilha de que fala John, que seu Tio Les construiu foi o seguinte: segundo informações, coleção de fotos e documentos arquivados no Harry Ransom Center, da Universidade de Austin, no Texas, a ilha era um amontoado de bambus, canos de ferro e outros materiais, media 8 X 30 pés (com projeto para crescer gradualmente) ancorada por correntes, um bloco de motor e trilhos velhos a uma profundidade de 15 pés, numa área de recifes cujo entorno, no mar a 8 milhas da Jamaica, tinha profundidade de 1000 pés. A ilha tinha 7 habitantes, Uncle Les, sua mulher, suas duas filhas e mais três amigos; Uncle Les se elegeu presidente da República que ele chamou de New Atlantis, criou a própria moeda, produzida com dentes de tubarão, pedras e anzóis de osso, imprimiu selos e, entre outras tantas curiosidades dessa excentricidade estão:

- perguntado por repórteres se não era ilegal o que ele fizera, respondeu que “não conhecia nenhuma lei que proibisse a criação de um país”;
- enviara uma carta ao país “vizinho”, a Jamaica, informando que era uma nação pacífica e que não faria nenhuma ameaça à Jamaica;
- a primeira publicação oficial da ilha, digo, da República de New Atlantis, foi um livro da culinária “local”;
- embora John Hemingway em seu artigo acima afirme que a ilha durou apenas dois meses, os documentos da Biblioteca da Universidade de Austin, no Texas, provam que a ilha aguentou alguns anos e chegou a crescer fisicamente, mas realmente um forte furacão, típico na região, a destruiu completamente.
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John Hemingway: nasceu a 19 de agosto de 1960, em Miami, Florida. Seu pai, Gregory H. Hemingway, era o terceiro filho de Ernest Hemingway. Sua mãe chamava-se Alice Thomas. Tem sete irmãos e irmãs e é o segundo mais velho dentre os filhos de três esposas de seu pai. Sua infância foi passada em Miami e Connecticut, EUA. Graduado pela U.C.L.A., University of California, Los Angeles, em 1983 com B.A. em História e especialização em História da América do Sul. Recentemente lançou o livro Strange Tribe (Estranha Tribo, ainda não publicado no Brasil), centrado na figura de seu pai, Gregory Hemingway que, após aposentar-se como médico renomado, ter sido casado com três esposas diferentes, submeteu-se a uma cirurgia e trocou de sexo, e passou a atender pelo nome de Gigi, tendo morrido numa penitenciária feminina na Flórida (fora preso nu em público). John Hemingway já viveu na Itália, Espanha e França, atualmente vive no Canadá, com sua esposa Ornella Canedoli, canadense/italiana, e tem dois filhos, um menino e uma menina.

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