Tio Les (tradução por Luís Peazê)
Ele era muito parecido com o seu irmão, e à noite, ou do outro lado de um quarto escuro, ou quando você bebia um pouco demais você até pensava que ele era o grande escritor em pessoa. Com pelo menos 1,90m de altura, estatura pesada como o próprio Ernest, o mesmo sorriso largo e a o timbre alto de voz característica de Chicago, meu tio Leicester foi uma pessoa que eu nunca vou esquecer.
Morava numa casa estilo colonial com sua família no topo da ilha San Marino, entre Miami e Miami Beach, e enquanto eu estive lá, entre os anos de 1973 e 1977, havia sempre uma visita para jantar ou beber um drinque. Ele tinha literalmente centenas de amigos e conhecidos e seu entusiasmo por tudo que fazia era tão contagiante que, por onde quer que ele andasse, estava sempre rodeado de atentos ouvintes.
Penteava os cabelos pretos agrisalhados para trás e usava um par de óculos com armação preta e pesada que aparentava algo entre um trabalhador de escritório e um poeta beat dos anos sessenta. Era dezesseis anos mais moço do que Ernest e dezesseis mais velho do que meu pai. Era o último filho vivo e tem muitas coisas de sua personalidade e caráter que me fazem lembrar de meu pai Gregory e meu avô Ernest.
Gostava de estar rodeado de pessoas e se divertir, mas podia também permanecer longamente solitário. Se houvesse alguém por perto para conversar ele conversaria, mas frequentemente lá estava ele no quintal dos fundos, ouvindo o vento nos pinheiros, pensando silenciosamente, empilhando achas de lenha que ele utilizava quase todas as noites na lareira. Nunca me falou muito sobre a sua família, mas eu sei que ele amava o seu irmão e que tendia a culpar a sua mãe pelo suicídio do pai. Obviamente que você não poderia afirmar que minha bisavó foi a culpada. Uma depressão clínica desenfreada atacou a família — o pai e mais três filhos cometeram suicídio até então. Desta forma era mais fácil culpar alguém do que lidar com a realidade de uma má sorte genética.
Tal qual meu avô, Tio Les era um grande viajante. Estava sempre pronto para ir para algum lugar e consumiu grande parte da sua vida pulando de ilha em ilha no Caribe. Depois de servir o exército, durante a guerra, ele foi diretor de uma companhia de navegação nas Ilhas do Caribe por dois anos, depois disso, nos anos sessenta e setenta, ele dirigiu e imprimiu o único jornal das Ilhas Bimini. Chegou até a “criar” a sua própria ilha, ou “república” como ele chamava.
Com uma boa soma ganha com a biografia de seu irmão ele criou uma ilha artificial, sobre uma barreira de corais ligeiramente fora das águas territoriais das Bahamas. Ele chamava o “seu país”, do tamanho de um campo de futebol, de “Nova Atlântida”. Pensava que entre tantas coisas ele poderia usá-la para ensinar a democracia para jovens e experimentar formas de governo.
Chegou a imprimir o seu próprio selo e fazer uma petição às Nações Unidas para reconhecimento. Tinha até uma foto dele com Hubert Humphrey, o vice presidente de Johnson, pendurada no banheiro de hóspedes de sua casa. Infelizmente a ilha do Tio Les não durou muito. Dois meses após ele conclui-la um furacão a destruiu.
Tal qual meu pai, era difícil considerar Tio Les um seguidor da moda. Ele possuia sim um terno e gravata, visto na foto com o vice-presidente dos Estados Unidos, mas seu traje habitual era uma vistosa camisa Cuban Guyabara e uma calça cáqui desbotada. E eu acho que nunca vi Tio Les com um par de sapatos de couro. Preferia canvas dock side ou qualquer tipo fácil de enfiar os pés sem a preocupação que estivessem secos ou molhados, limpos ou sujos.
Muitas pessoas olhavam para o jeito que ele se vestia e para o velho carro de segunda-mão que dirigia achando que ele não era sério como seu irmão e que lhe faltava o trato e a elegância de Ernest. Certamente que ele não tinha a notoriedade e alcançado o sucesso de Ernest, mas isso, o nível de Ernest, eu duvido que qualquer um de nossa família alcançará. Meu avô era uma pessoa difícil de se conviver e acompanhar. Um gênio é um gênio e não pode ser copiado.
Mas Tio Les tinha uma idéia clara do que era certo e errado e como um homem deveria viver. E dignidade foi uma coisa que ele não considerava superficialmente, achava que havia muitas coisas que se poderia fazer para realçá-la ou perdê-la de vez.
Socorrer seus amigos, sua família, quando necessário, era a segunda natureza de Tio Les. Ele não esperava ser convencido, ia e fazia tudo o que estivesse ao seu alcance. Sei disso porque quando eu tinha treze anos minha mãe sofreu uma afecção mental. Ela tinha dupla personalidade, ou esquizofrenia, e esta não tinha sido a primeira vez que ela tinha tido problemas, mas foi a primeira vez que eu, como filho mais velho — minha irmã era um ano mais moça do que eu, meu irmão seis — tive que pensar sobre uma solução.
Meus pais haviam se divorciado quando eu tinha seis anos e meu pai foi viver em New York. Estávamos em casa e minha mãe foi presa por dirigir embriagada. Um policial apareceu na nossa porta no dia seguinte, disse-me o que acontecera e perguntou se havia alguém para tomar conta de nós durante o fim de semana, enquanto minha mãe estivesse detida.
Respondi que conhecia uma senhora, a mãe de um amigo da escola. Então ele nos colocou no carro da patrulha e nos levou até a casa dela. No trajeto ele percebeu que estávamos nervosos e tentou brincar com a situação dizendo com um sorriso: - vejam todas estas pessoas tolas lá fora. Elas pensam que vocês três estão presos. Anos depois, relembrando aquela viagem eu pensei como ele foi gentil e como deve ser difícil às vezes para um policial.
Ficamos na casa de meu amigo por dois dias e sua mãe foi muito amável conosco e antes de nos levar de volta para nossa casa ela comprou comida e encheu nossa, então, geladeira vazia.
Minha mãe foi solta, mas duas semanas mais tarde foi presa novamente por dirigir embriagada. Desta vez, quando o policial fez contato com a mãe do meu amigo ela telefonou e perguntou se não tínhamos parentes em Miami. Imediatamente pensei no Tio Les. Porque a mãe do meu amigo explicou para mim que, por causa do péssimo estado de minha mãe, se ninguém da família tomasse conta de nós, o Estado da Flórida iria nos internar em abrigos públicos para menores, separados, um em cada lugar.
Naturalmente que Tio Les e sua esposa, Doris, disseram à polícia que tomariam conta de nós. E foram nos apanhar num de seus velhos carros, uma viagem pela estrada aterrada Venetian até o topo da ilha onde moravam.
Lembro que no início, mesmo tendo um lugar para ficar, eu não era feliz. Tive que deixar minha escola e meus amigos e estava num ambiente completamente estranho.
Eu devia estar emocionalmente chocado e escrevia cartas e mais cartas para meu pai, seu irmão, meu outro tio Jack, para qualquer um que pudesse, eu pensava, me tirar de lá.
Tudo parecia fora de controle e eu estava tentando estabelecer, do meu jeito confuso, uma forma qualquer de ordem. Foi um período difícil da minha vida e meu Tio Les sabia. Seu pai morreu quando ele tinha 13 anos de idade e por causa do desastre financeiro que a sua mãe teve que lidar ele foi enviado para a casa de sua irmã mais velha e seu marido no Hawaii. Ele nunca me contou isso. Eu descobri anos mais tarde quando alguém me enviou um livro com o título “Hemingway de A a Z” com uma rápida biografia dele, revelando que vivera lá quatro anos de sua vida.
Quando eu estava com treze anos, magricelo e desajeitado como somente um adolescente pode ser, lembro ter dito para ele que achava que eu nunca seria alto e forte como ele. Perguntei como ele era na minha idade. De repente ele perdeu o sorriso, franziu o cenho e disse: “- exatamente como você”. Deveria estar olhando para mim e revendo a si mesmo, um sobrinho tímido e introspectivo.
Quando eu finalmente desisti de escrever cartas comecei a ler os livros de meu avô. Li Farewell To Arms, Men Without Women, Nick Adams Stories e todos os demais. Fiquei fascinado, eu acho, pela idéia de estar relacionado a alguém que podia escrever tão bem. Parecia tão grande, tão irreal. Mas quando eu tive contato com For Whom The Bell Tolls, Por Quem os Sinos Dobram, lembro que numa tarde estava lendo o livro na mesa da sala de estar daquela grande casa no topo da ilha, era agosto e estava muito quente, muito úmido também, e eu vestia bermuda cáqui, sem camisa, descalço, e Tio Les aproximou-se pelas minhas costas, em silêncio, e colocou sua mão no meu ombro ossudo e disse: “- ele escreveu isto para rapazes como você, Johnny, lembre-se disto”.
Acho que jamais recebi, ou nunca irei receber, um cumprimento mais significativo na minha vida. Ele não disse mais nada. Deixou assim, mas foi o bastante. Por Quem os Sinos Dobram é um livro que vai no âmago de tudo o que meu avô acreditava. Sacrifício, coragem, abnegação e tudo expressado lindamente em um poema no início do livro pelo poeta John Donne.
Nenhum homem é uma Ilha, inteiramente em si mesmo; todo homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra. Um Torrão levado pelo Mar diminui a Europa, como se um Promontório fosse, da mesma forma que a Herdade Feudal de teu amigo ou a tua própria também. A morte de um único homem Me diminui, porque eu sou parte do Gênero Humano. Portanto, nunca queira saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.
Regras para a gente inspirar a nossa vida, sempre pensei, sobre a dignidade de um homem, qualquer homem. Ele não poderia dar-me muitas coisas, materiais, mas no seu próprio jeito subentendido e através de suas ações mostrou-me o que é importante na vida.
Quatro anos mais tarde eu deixei a casa da ilha, a diabetes de Tio Les deteriorou ao ponto dos médicos decidirem amputar as suas pernas, então, não querendo se tornar um estorvo na vida de ninguém, terminou ele mesmo com a própria vida.
Milão, agosto de 2002.
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NOTAS DO TRADUTOR:
“John Hemingway me contou que desde a adolescência mantém na sua carteira o poema de John Donne, que inspira o nome do maior romance de seu avô, Por Quem os Sinos Dobram”
“John me contou também que acabara de escrever o artigo traduzido ao lado, quando eu lhe telefonei para sua casa em Milão, Itália”
“John ficara impressionado com a coincidência, eu estar traduzindo o livro de seu avô, que segundo ele é o mais forte dentre todos, no momento em que ele escrevia o artigo”. Luís Peazê
A ilha de que fala John, que seu Tio Les construiu foi o seguinte: segundo informações, coleção de fotos e documentos arquivados no Harry Ransom Center, da Universidade de Austin, no Texas, a ilha era um amontoado de bambus, canos de ferro e outros materiais, media 8 X 30 pés (com projeto para crescer gradualmente) ancorada por correntes, um bloco de motor e trilhos velhos a uma profundidade de 15 pés, numa área de recifes cujo entorno, no mar a 8 milhas da Jamaica, tinha profundidade de 1000 pés. A ilha tinha 7 habitantes, Uncle Les, sua mulher, suas duas filhas e mais três amigos; Uncle Les se elegeu presidente da República que ele chamou de New Atlantis, criou a própria moeda, produzida com dentes de tubarão, pedras e anzóis de osso, imprimiu selos e, entre outras tantas curiosidades dessa excentricidade estão:
- perguntado por repórteres se não era ilegal o que ele fizera, respondeu que “não conhecia nenhuma lei que proibisse a criação de um país”;
- enviara uma carta ao país “vizinho”, a Jamaica, informando que era uma nação pacífica e que não faria nenhuma ameaça à Jamaica;
- a primeira publicação oficial da ilha, digo, da República de New Atlantis, foi um livro da culinária “local”;
- embora John Hemingway em seu artigo acima afirme que a ilha durou apenas dois meses, os documentos da Biblioteca da Universidade de Austin, no Texas, provam que a ilha aguentou alguns anos e chegou a crescer fisicamente, mas realmente um forte furacão, típico na região, a destruiu completamente.
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John Hemingway: nasceu a 19 de agosto de 1960, em Miami, Florida. Seu pai, Gregory H. Hemingway, era o terceiro filho de Ernest Hemingway. Sua mãe chamava-se Alice Thomas. Tem sete irmãos e irmãs e é o segundo mais velho dentre os filhos de três esposas de seu pai. Sua infância foi passada em Miami e Connecticut, EUA. Graduado pela U.C.L.A., University of California, Los Angeles, em 1983 com B.A. em História e especialização em História da América do Sul. Recentemente lançou o livro Strange Tribe (Estranha Tribo, ainda não publicado no Brasil), centrado na figura de seu pai, Gregory Hemingway que, após aposentar-se como médico renomado, ter sido casado com três esposas diferentes, submeteu-se a uma cirurgia e trocou de sexo, e passou a atender pelo nome de Gigi, tendo morrido numa penitenciária feminina na Flórida (fora preso nu em público). John Hemingway já viveu na Itália, Espanha e França, atualmente vive no Canadá, com sua esposa Ornella Canedoli, canadense/italiana, e tem dois filhos, um menino e uma menina.